'NO MEU GOVERNO NÃO HAVERÁ BALCÃO DE NEGÓCIO' DIZ FREJAT



Por Fred Lima



A sede do PR-DF estava cheia na manhã desta quarta-feira (14), com ares de pré-campanha. Os assentos quase todos ocupados. Dois parlamentares saíram da sala de reunião e cumprimentaram os visitantes. Sorridentes, Laerte Bessa e Bispo Renato apertaram a mão de cada um dos presentes. Não parece ser um partido dividido. De repente, Jofran Frejat, 80, apareceu e alguém o chamou de “meu governador!”. Ele olhou e sorriu. Não aparenta ter a idade que tem. Durante a entrevista concedida ao Blog do Fred Lima, o ex-secretário de Saúde demonstrou tranquilidade ao responder todas as perguntas, inclusive as mais difíceis. “Compromisso” foi a palavra mais dita pelo republicano. Ele apontou as áreas prioritárias de seu eventual governo: saúde, educação, segurança e mobilidade. Na questão da ética pública, afirmou que não abrirá mão de seus princípios. Confira:



De acordo com a última pesquisa de intenção de voto, o senhor figura na frente dos demais pré-candidatos, mas é o segundo mais rejeitado da oposição, atrás somente do deputado Alberto Fraga (DEM-DF). Isso pode ser um empecilho para conquistar os indecisos?

Não acredito. A rejeição é pequena. Ela existe para todos os pré-candidatos. Como fui quatro vezes secretário de Saúde e deputado federal pode existir alguma rejeição, mas não vejo isso como empecilho. No momento em que se apresenta a candidatura, uns conhecem, outros não. Em geral, quem não conhece o candidato acaba demonstrando rejeição porque já tem compromisso com outro postulante. Por exemplo: se você é o candidato A e está disputado com o candidato B, aqueles que escolheram o candidato B seguramente vão dizer que rejeitam o candidato A. Então nem sempre é uma coisa real. O que temos que fazer é mostrar as nossas propostas para que o cidadão que hoje diz que vai votar no candidato B, vote no A.




Não tenho mais idade para errar. Quero fazer um trabalho para que Brasília volte a ser a capital da esperança.



Oficialmente, o PR é oposição ao Buriti. Porém, o líder do governo na Câmara Legislativa do DF é do seu partido. Isso não confunde a opinião pública, passando a impressão de que a sua legenda pode estar na base?

Minha posição tem sido muito clara. Cada um escolhe o caminho que quer seguir. Se alguém do meu partido está fazendo um bom trabalho pela população, não estou preocupado se apoia fulano ou beltrano. Em política temos que nos preocupar é com as pessoas.



Um governo Jofran Frejat teria maioria na CLDF?

Ainda sou pré-candidato, mas se eventualmente for eleito governador pretendo ter um bom relacionamento com todos os deputados, mostrando que o nosso compromisso é com a população do DF. Não tenho mais idade para errar. Quero fazer um trabalho para que Brasília volte a ser a capital da esperança. Estamos assistindo com tristeza várias famílias vendo os seus filhos irem embora da cidade por falta de oportunidades. Esse não é o nosso objetivo.




Quem tem dinheiro não precisa de hospital público. Estamos preocupados com aqueles que estão precisando do estado.



Remanescentes do grupo da direita reclamam nos bastidores de que não é fácil negociar com o senhor. O problema está em uma suposta intransigência de sua parte ou em hábitos da velha política praticados por eles?

A pergunta deveria ser feita a eles. Sei que algumas pessoas dizem que sou duro e incontrolável. Fui secretário de Saúde exatamente pelo fato de ser rígido e não abrir mão de certos princípios. Na época, muitos me criticaram, mas o meu compromisso era com o povo. Se for escolhido para gerenciar um governo, não posso abrir mão dos meus ideais. Se começasse a negociar, transformando o governo em um balcão de negócios, com certeza estaria cometendo um grande equívoco. Todos aqueles que fazem isso acabam se dando mal. Está aí o exemplo no país inteiro, de políticos que transformaram o estado em balcão e deu no que deu.



Em algum momento já pensou em desistir da disputa por causa dos ataques que vem recebendo?

Pelos ataques, não. Como na eleição passada, não era a minha pretensão ser pré-candidato a governador. Acontece que o meu nome foi inserido pela população. Não tenho o direito de dizer “não” ao povo. Governar o DF não é fácil. Tem que contrariar interesses e lutar para fazer alguma coisa pelos mais necessitados. Veja a questão da saúde, onde as pessoas estão chorando, implorando por atendimento. Quem tem dinheiro não precisa de hospital público. Estamos preocupados com aqueles que estão necessitando do estado. Quando fui secretário, a saúde era um exemplo para o país inteiro. O que aconteceu? A culpa é do servidor? Claro que não. Está faltando gestão. Não tenho medo algum de enfrentar os problemas de Brasília. Não vou desperdiçar essa chance.




Antigamente, os moradores do entorno vinham se tratar em Brasília. Agora, o brasiliense está indo procurar atendimento no entorno. Tem alguma coisa de errada nessa história.



A possibilidade de concorrer ao Senado está descartada?

Não é a minha pretensão. Darcy Ribeiro dizia: “O Senado é melhor do que o céu, porque nem é preciso morrer para estar nele”. Todavia, acho que sou um bom executivo. Já demonstrei isso várias vezes, tanto na Secretaria de Saúde quanto no Ministério da Previdência, quando fui secretário-executivo e ministro interino. Posso colaborar mais com Brasília estando no governo. Poderia disputar o Senado, pois é uma eleição mais tranquila, mas não é esse o meu objetivo. Já que estão me colocando na pista de corrida para o Buriti, então vou prosseguir em frente.



Quem seria o vice ideal?

Aquele que tenha qualificação, que não seja o adversário político do governador. Não posso aceitar alguém diferente do meu perfil.




Se ele (Rollemberg) não cumpriu promessas de campanha, de duas uma: ou encontrou grandes dificuldades ou então não conhecia o orçamento do DF.



Por ter sido quatro vezes secretário de Saúde, a pasta pode vir a ser a prioridade de seu governo, caso vença a eleição?

Saúde é sempre uma prioridade. Tudo começa com a prevenção da doença. No momento em que você deixa o cidadão adoecer porque não fez a prevenção, seguramente o governo terá um gasto muito maior com a UTI. Temos que trabalhar com a prevenção. Conseguimos fazer esse trabalho construindo hospitais e polos. Qual hospital novo foi construído desde que deixei a secretaria? Nenhum. Até a planta do Hospital de Santa Maria fui eu que mandei fazer, independentemente se foi ampliada depois. O Hospital da Ceilândia, o Hospital da Asa Norte, o Hospital do Paranoá, o Hospital de Apoio, o Hemocentro, o Bloco Materno Infantil – HMIB e a Faculdade de Medicina foram obras da minha gestão na pasta. E o que os meus sucessores fizeram? Hoje, lamentavelmente, o inverso está ocorrendo na capital. Antigamente, os moradores do entorno vinham se tratar em Brasília. Agora, o brasiliense está indo procurar atendimento no entorno. Tem alguma coisa de errada nessa história. Segurança pública também é prioridade. No passado, costumava dizer que o policial saia de sua residência para trabalhar e não sabia se voltava no final do dia, podendo ir a óbito. Hoje, qualquer um de nós está correndo o mesmo risco. Um pai de família é morto a sangue frio. Na educação, a cada dia o padrão vem caindo. Tenho uma proposta não apenas na área de educação básica, com horário integral. Só temos duas faculdades públicas no DF. Se você quiser estudar medicina pagará R$ 7 mil de mensalidade em uma faculdade particular. Se eu tiver oportunidade, vou transformar o Centro Administrativo (Centrad) na universidade do governo do DF, com faculdades de engenharia, direito, medicina e outros cursos. Vai ser muito bom para os jovens de Taguatinga, Samambaia, Ceilândia e Águas Claras. Na mobilidade urbana, um dos grandes problemas é o estacionamento, além do engarrafamento. Tente ir para Taguatinga ou Gama no horário de pico. É uma loucura! Temos que investir no transporte público, melhorando tanto o Metrô quanto o ônibus. Precisamos sentar e conversar com os setores responsáveis para encontrar uma solução.



A alta rejeição do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) é em decorrência da falta de dinheiro por causa da crise ou pelo descumprimento de promessas de campanha?

Se ele não cumpriu promessas de campanha, de duas uma: ou encontrou grandes dificuldades ou então não conhecia o orçamento do DF. Uma dessas respostas está correta. A população não consegue fazer uma avaliação positiva de seu governo. A desculpa da crise financeira não foi aceita. Temos que achar uma saída. Só reclamar também não adianta. Precisamos buscar pessoas capacitadas e comprometidas com a cidade.



Um governo Frejat teria mais a cara da era Joaquim Roriz?

Fui secretário do Aimé Lamaison, José Ornellas e Roriz. Vou manter todo programa feito por outros governos que seja bom para a população. Cada um responde pelos seus erros e acertos. Ninguém responde pelos meus erros, então por que vou responder por erros de terceiros? Não faço julgamentos. Fui alvo também de críticas injustas. Quando abri a Faculdade de Medicina, o Ministério Público entrou com uma ação para impedir que fosse feito o vestibular, utilizando o argumento de que Brasília ainda não tinha 100% de atendimento fundamental. Em nenhum estado ocorre atendimento por completo. Perdeu na primeira instância. Isso aconteceu em 2001. A ação só foi concluída em 2007, com os alunos formados. O MP perdia e recorria. Fizeram isso várias vezes comigo, por isso tenho medo de fazer julgamento. Não sou juiz. O maior juízo é o de Deus. O padre Vieira, em sermão, disse que preferia ser julgado pelo demônio a ser acusado pelos homens. O juízo dos homens muitas vezes supõe alguma coisa e já te condena. Existe uma coisa que muita gente perdeu: a misericórdia.



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