Energia Solar estréia no Brasil - Preço competitivo


Ofertas agressivas marcaram o primeiro leilão específico para energia solar no Brasil, que aconteceu na sexta-feira, 31 de outubro, resultando na contratação de 890MW de capacidade despachável (capacidade total de 1.048MW) a um preço médio de BRL 215/MWh (USD 87/MWh). Este é um dos preços mais baixos para energia solar no mundo, segundo a empresa de análise Bloomberg New Energy Finance (BNEF).
Até hoje, os contratos mais competitivos para energia solar foram firmados nos Estados Unidos, a um preço estimado de USD 50/MWh, no entanto esses projetos recebem subsídios significativos. Globalmente, os contratos mais baratos de energia solar sem subsídios foram registrados no Uruguai, a USD 91,5/MWh. Segundo BNEF, o ‘custo nivelado de eletricidade’ estimado no Brasil (ou LCOE, pela sigla em inglês, uma medida que amortiza os custos do projeto dentro de um período de 20 anos levando em conta retornos para o empreendedor) é por volta de BRL 235,4/MWh (USD 95/MWh).
Dado que o preço médio do leilão está abaixo do LCOE, chega-se a duas conclusões:
> Os donos dos projetos estão apostando que podem reduzir custos abaixo dos preços atuais (os projetos devem entrar em operação até outubro de 2017).
> Esses empreendedores provavelmente comprometeram significativamente o retorno dos projetos.

O leilão resultou na contratação de projetos por 20 anos a um preço médio de BRL 215/MWh. Os ganhadores desses contratos consistem em 31 projetos, totalizando 890MW de capacidade despachável. Entre as empresas vencedoras estão empreendedores de energia renovável conhecidos como Renova Energia e Rio Energy; empreendedores internacionais como Enel Green Power; e novos empreendedores de energia solar como Solatio, além de quatro outras empresas.
Utilizando o Modelo de Leilão Brasileiro, BNEF estimou que o preço médio “racional” teria sido BRL 260/MWh, muito próximo ao preço-teto do leilão, BRL 262/MWh. No entanto, essa análise levou em conta um retorno de 13% (taxa interna de retorno depois de impostos), dado o risco de construir os primeiros projetos solares de grande escala no país. BNEF explicou em um relatório a seus clientes antes do leilão que em leilões passados para energia renovável no Brasil, a tendência de ofertas ‘irracionais’ foi comum, e que nessas circunstâncias o preço médio de contratação poderia diminuir significativamente.
Outros dois leilões aconteceram em paralelo ao leilão solar. O leilão para energia eólica resultou na contratação de 769MW vindos de 31 projetos a um preço médio de BRL 142,3/MWh (USD 57,4/MWh). Isto é abaixo do melhor LCOE para projetos eólicos no Brasil, que figura em BRL 147,5/MWh (USD 59,5/MWh), segundo BNEF, e está acima do preço médio contratado no leilão passado que ocorreu no dia 6 de junho de 2014. Entre os ganhadores de contratos eólicos estão Renova Energia, Enel Green Power, que também firmaram contratos no leilão solar, CER Energia, Copel, Gestamp e PEC Energia. Não houve ofertas para o leilão de biomassa/biogás.
“Nos primeiros leilões nos quais projetos eólicos foram os grandes ganhadores também houve forte competição entre projetos, resultando em preços e retornos baixos. Um fenômeno similar aconteceu neste último leilão com projetos solares. O preço mais baixo atingido por um projeto solar foi BRL 200,8/MWh (USD 81,1/MWh), nós estimamos que a taxa de retorno deste projeto em particular seja por volta de 8%. É interessante destacar que ofertas de projetos eólicos estiveram próximas ao preço-teto,terminando com um preço médio de BRL 142.3/MWh (USD 57,4/MWh).”, disse Helena Chung, analista baseada em São Paulo com foco em energia renovável na América Latina para BNEF.
As características da energia solar no Brasil são únicas. Por um lado, os recursos solares no Brasil são excelentes – o fator de capacidade médio dos projetos vencedores é 19% (comparado a 11% na Alemanha) – e podem chegar a 23.7% para um projeto na Bahia que utiliza sistema de rastreamento do sol (tracking). Projetos de energia renovável no Brasil também tem acesso a empréstimos com taxas favoráveis do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES). Por outro lado, os custos de desenvolvimentos são mais altos que em outras partes do mundo, dado taxas de importação e regras de conteúdo local para equipamentos. Há um outro aspecto que cria complicações para os projetos. O sistema de compensação inclui benefícios para geração acima do contratado, assim como multa para geração abaixo do esperado.
Este leilão ocorreu em um momento importante para o país, logo após uma disputada eleição presidencial, e com o setor energético com dificuldades dado altos preços de eletricidade.
“As oportunidades para o mercado de solar no Brasil estão apenas começando, e o potencial pode ser gigante, com possibilidade de chegar a dezenas de gigawatts na próxima década,” disse Michel Di Capua, Diretor de Análise das Américas para BNEF. “Investidores normalmente tentariam manter seus retornos altos ao entrar em um novo mercado com uma tecnologia relativamente nova. Neste caso, a tentação de ser um dos pioneiros no mercado, mesmo significando baixo retorno, foi mais atrativa.”
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